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A HISTÓRIA NÃO CONTADA DA 'TERRA DA UVA'

Memórias de um passado presente, a herança negra da cidade de Jundiaí

Uma catedral amarela no meio da cidade, localizada em uma praça cercada por estabelecimentos comerciais. Prédios baixos são acompanhados por uma antiga residência: um casarão com pé direito alto e um porão elevado, herança da colonização. Nos arredores, zonas rurais e vinhedos que explicam a fama da cidade “italiana”.

Mais abaixo, um pouco afastado do centro, uma porta de vidro com uma fachada singela identificam um espaço de resistência, um dos primeiros clubes negros do Brasil,
o 28 de setembro. No lado norte da cidade, uma ferrovia antiga, que funciona até hoje. Uma mistura de passado com presente, uma lembrança, bem no fundo da memória.

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"Vamo, Marica, vamo 

     Vamo pra Jundiaí

      Com Dudu Marica vai 

      Só comigo não quer ir.

Vamo Marica, Vamo!
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Jundiahy

Jundiaí, inicialmente denominada "Jundiahy” pelos povos originários em tupi-guarani,  é conhecida como a terra da uva e dos imigrantes italianos.

Anualmente, entre  janeiro e fevereiro, ocorre a celebração de uma tradição antiga da cidade, que recebe mais de 200 mil visitantes de diversas regiões e países:
a Festa da Uva

Apoiado pela prefeitura, o evento, que acontece desde 1988, realizou a sua 37° edição de celebração em 2025. A cidade não é turística, mas vende a memória de imigrantes como se fosse orgulho de Jundiaí, a “terra querida, gentil e altruísta”, “bem paulista”. Terra esta que se esqueceu de quem a construiu: a população negra.

 

No site oficial da prefeitura, é possível encontrar um sumário da história da cidade, que descreve em detalhes a imigração italiana no final do período escravista em 1888. A história é contada como um período de superação dos europeus, que passaram por desafios para se estabelecerem na região. 

Mas, onde estavam os negros nesta história? Bom, a eles a prefeitura dedica no máximo quatro menções na história oficial publicada no site. Sempre citados como
“escravos”, para falar de mão de obra, apenas como peças da economia. Aos negros, nenhuma menção. A herança preta da cidade? Não mereceu sequer um espaço. Resistência afro-brasileira? Nunca nem se ouve falar. O clube 28? Não se encontra no registro.

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2025

1949

Foto histórica da Igreja Nossa Senhora do Desterro – Crédito: Acervo da Prefeitura de Jundiaí / Secretaria de Comunicação. Disponível em: Prefeitura de Jundiaí – História da Cidade.

Fachada da Catedral Nossa Senhora do Desterro, Jundiaí - SP,  em registro de 2025 | Crédito: Camile Fagundes

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Em meados do século 18 e 19, Jundiaí chegou a ter mais de um terço da população de matriz africana. Esses indivíduos eram, em sua maioria, escravizados que trabalhavam nas lavouras de cana de açúcar e de café e foram responsáveis pelo crescimento econômico da cidade.

 

No final do século 18, a região foi um importante polo econômico de São Paulo, fazendo parte do “quadrilátero do açúcar”, junto com Sorocaba, Mogi Guaçu e Piracicaba. Africanos e afro-brasileiros escravizados foram fundamentais para que todo o processo de extração funcionasse com sucesso. 

Depois da cana, o café se tornou o principal ativo econômico da cidade, também produzido por mãos negras. Em 1854, a cidade possuía 57 fazendas de café, 235 colonos e 1.450 pessoas escravizadas, que foram responsáveis por produzir 60.600 arrobas de café.

 

A expansão resultou na construção da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, uma das mais importantes  do país no século 19, responsável pelo escoamento da produção cafeeira. A linha férrea foi construída por mão de obra escrava negra e indígena e pelos imigrantes. 

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Exposição Museu Ferroviário de Jundiaí retrata o trabalho de escravizados na expansão da malha ferroviária paulista | VÍDEO: Camile Fagundes

Participação
na economia

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Quadrilátero do Açúcar (à esquerda). In. LEITE, Marcelo (org.). Nos caminhos da biodiversidade paulista. São Paulo: Secretaria do Meio Ambiente, 2007, p187. Divisão Político Administrativa do Estado de São Paulo (à direita). Fundação SEADE.

O 'Pelourinho'

Ainda assim, nenhuma linha do site da prefeitura conta essa história. Nenhuma festa apoiada celebra a tradição afro diaspórica. O  Clube Beneficente Cultural e Recreativo Jundiaiense 28 de Setembro, rica herança de luta da cidade, encontra dificuldade para se manter de pé. Jundiaí cresceu em cima do escravagismo, mas historicamente destrói a memória da população negra, que vive e resiste na cidade.

No centro, alí pertinho da catedral, existia a Igreja do Rosário. Nesse espaço, bem no coração de Jundiaí, ficava o pelourinho. No local, conhecido como cemitério dos escravizados, foram enterrados indígenas e “crioulos” (nascidos no Brasil). Em 1922, porém, a igreja foi demolida, apagando a história dessas pessoas que construíram Jundiaí e morreram ali. Hoje, naquele mesmo espaço, há um totem que conta a história da praça. E nenhuma menção ao pelourinho.

Professor Alexandre
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" Ele é considerado um lugar de memória, por conta da relação de materialidade, por haver

nesse espaço despojos humanos de escravizados indígenas, africanos e afro-brasileiros."

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1949

2025

Movimentação de pedestres e veículos na Rua Cândido Rodrigues, no centro de Jundiaí (SP). | FOTO: Camile Fagundes

Detalhe da fotografia da Rua do Rosário, tendo ao fundo a Igreja de N. S. do Rosário, construída
possivelmente no final do século 18 e demolida por iniciativa do poder público municipal em
1922. Década de 1910. Fotografia de Alexandre Janczur. Acervo AHMJ

Onde hoje se vê o terminal central de ônibus, a atual Praça da Bandeira, ficava o Largo da Forca, símbolo e executor de punição dos escravizados. Milhões de pessoas já pisaram naquele solo sem ideia de onde estavam, transitando pelo lugar de morte que absorveu o suor e o sangue de dezenas de pessoas escravizadas. Mais uma vez, nenhuma memória, nenhuma placa, nenhuma identificação. Apenas um terminal num centro comercial.

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Nhonhô, não ouviu falar do Largo da Forca?

Puis era alli mesmo ao lado da Egreja. 

Me lembro que o primeiro que estreou foi um preto de nome Cremente. 

Foi injustamente por causa de um tal Gonçalo, que munto puchadô de Sinhô. 

O causo foi assim: o Sinhô tinha uma negrinha do porte já de casá e um bello dia ella pareceu em vesp’ra de se mãe. 

Sinhô fico brabo e quis saber quem foi o auto. 

Nois tudo sabia que tinha sido o Gonçalo, mas tanto elle feiz, que ponou a curpa no pobre do Cremente, que assim pagou o pato. 

A negrada tuda assistiu p’ra exemprá nóis.” (foi mantida a transcrição feita no momento da publicação da revista)" 

 

Revista Sultana, 1929. Acervo AHMJ

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Resistência negra

Na frente do terminal central, hoje está o Clube 28. A fundação ocorreu apenas sete anos após a abolição da escravatura, em 1895. O 28, carinhosamente apelidado pelos mais próximos, era um espaço de refúgio, organização, resistência e existência da população negra — um lugar de lazer e articulação política. Resiste até hoje, mas carece de investimento e apoio.

“ A  década de 1890 é uma década muito importante porque é onde os primeiros clubes negros também começam a se formar e se constituir. E essa população negra recém-liberta, que havia sofrido, que estava sendo perseguida, vai se organizar a partir daí. É o momento que o negro está sendo perseguido. Em Jundiaí, não é diferente.

Essa fala é de Alissa Galdino, mulher preta, historiadora, nascida e criada em Jundiaí, Miss Pérola Negra da cidade, 26 anos.

Mulheres na confraternização do clube 28 de Setembro em Jundiaí | FOTO: Acervo pessoal Sarah Magali Estevam

Alissa dedicou seu mestrado a explicar os roubos de escravizados em Jundiaí no século 19, que ameaçavam a dinâmica política e econômica da época.

Ela entende muito bem o que é ser negra na cidade “italiana”, e relata a sobrevivência e a existência na cidade. Como miss, título que recebeu após participar do concurso dedicado a homenagear mulheres negras na região, ainda encontra resistência em articular mudanças que valorizem a população negra.

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FOTOS: Acervo pessoal Alissa Galdino

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A  população negra não foi inserida devidamente na sociedade e o principal debate na época (pós escravidão) era justamente o que fazer com essa população, que ia sair das senzalas e iria para as ruas. Então, esse processo, além de não ter acontecido de uma maneira eficaz, foi um processo que foi forjado por ideias higienistas. Foi  um processo marcado por muita violência e muita contestação. Os escravizados foram muito atuantes durante a campanha abolicionista, diferente do que muitas pessoas acreditam.”

- Alissa Galdino

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Ao ser questionada sobre sua relação com a cidade, enquanto mulher negra, a historiadora sente o apagamento, não só da história verdadeira da negritude jundiaiense, mas de sua existência presente. 

Eu gosto de dizer que eu me enxergo a partir dos meus dentro da cidade. Eu não acho que a cidade me enxergue da maneira como eu gostaria de ser vista, mas os meus me enxergam, pelo menos a maioria, e é a partir disso que eu me configuro enquanto sujeito. Eu vejo que a cidade de Jundiaí ainda passa por um processo de apagamento muito grande da história negra. É uma cidade que reconhece muito a sua herança italiana, mas tem uma dificuldade muito grande de reconhecer a importância do negro.

Alissa ressalta que sua vivência na cidade se forja a partir da experiência coletiva com outras pessoas negras, por meio de um processo de 'aquilombamento' e que a população negra é resistência por excelência. “Eu acredito que enquanto a população negra, enquanto povo, continuar se pautando a partir do que a branquitude nos oferece, nós sempre estaremos em desvantagem.” conclui a historiadora.
 

FOTOS: Acervo pessoal Sarah Magali Estevam

Sobre o trabalho

Reportagem multimídia produzida para a disciplina Jornalismo Digital, do curso de Jornalismo da FAPCOM (Faculdade Paulus de Comunicação), no 2º semestre de 2025. Orientação: Profª Patrícia Basilio, com o objetivo de revelar uma parte fundamental da história de Jundiaí que, por muito tempo, foi apagada: a trajetória e a participação dos povos negros na formação da cidade.

Nosso time

Produção autoral de estudantes do 6º semestre de Jornalismo da FAPCOM. Um mergulho na história negra de Jundiaí através da reportagem multimídia e documentário

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